ARTIGOS DO TEJON


Ser vítima ou protagonista da sua vida



Outro dia recebi um e-mail de uma pessoa que não gostou do meu relato sobre “Prestar atenção nas batatas”. Para quem não sabe, essa metáfora foi a fórmula que minha mãe adotiva usou para que, aos sete anos de idade, com meu rosto queimado, me levasse à feira livre e fizesse com que eu prestasse atenção na escolha de batatas, e não prestasse atenção no burburinho da feira, que era a curiosidade das pessoas sobre um menino com o rosto deformado.

Essa magia de Dona Rosa, minha mãe adotiva, dentre outras dos meus pais adotivos, me deu coragem. Eles jamais permitiram que eu tivesse vergonha do meu rosto e me prepararam para ser uma pessoa independente. Esperavam que um dia fosse ser um “grande homem”. E um homem simples e de muito caráter. Antônio, meu pai adotivo, vindo de Trás-os-Montes, em Portugal, dizia que “A palavra dada valeria mais do que qualquer contrato”.

Então, o e-mail que recebi negava isso, e veio de uma pessoa extraordinariamente revoltada com a vida. Dizia sobre os seus insuportáveis preconceitos, de ser gorda, de ser diferente… Insinuava que eu desconhecia os reais sofrimentos do mundo.

Eu poderia contar outro tipo de história ao invés de relatar os poderes e as forças imensas que meus pais adotivos me ensinaram a ver. Eu poderia ser muito revoltado com minha mãe biológica, que era mãe solteira. Ou então, desobediente, pois ela teve um filho com um homem desconhecido. Eu poderia ter odiado meus pais adotivos, afinal, foram das mãos deles que saiu a lata de cera quente com gasolina que explodiu em meu rosto.

Poderia ter contabilizado todo bullying que um menino de rosto queimado desde os quatro anos de idade sofreu em sua jornada. Poderia ter guardado os olhares de horror, de vergonha, de piedade, e até de nojo com os quais cruzava nas ruas, escolas, igrejas e hospitais. Eles existiram? Sim, porém infinitamente menores do que os olhares de carinho, amor, estímulo, força e amizade.

Me perguntam sempre: “Você sentiu prejuízo na sua vida por preconceito do seu acidente facial?”, e então eu respondo: “Não. Devo ter sentido, mas eu não tinha tempo para prestar atenção nisso”.

Quando olho boa parte da sociedade brasileira e do foco de grande parte da mídia, observo a predominância da “vitimização”. Um povo que é vítima, uma perseguição por parte dos outros, como por exemplo: “Olha o que fizeram comigo?!”.

Prestei atenção nas batatas, em pessoas simples do meu bairro que meus pais adotivos me ensinavam a admirar. Fui ensinado por uma colona do Morro da Canastra, no Rio Grande do Sul, a ter o legítimo orgulho da dignidade de ter uma vida. E do meu pai português levei a palavra de ordem de toda minha vida: “Coragem, filho. Não tema as ondas que se batem nas rochas, saiba mergulhar nelas antes que elas te derrubem…”.

Ninguém me deu aula de superação, apenas me ensinaram a viver a vida que precisava ser vivida, lutada e vencida. Nosso Brasil precisa de protagonistas e uma guerra poderosa contra a vitimização.



< Voltar

Mais artigos:

Dia mundial do café e do Santos FC – o time do Pelé que nasceu do café Super Safra mostra agrosuperação da nação brasileira O lado positivo da crise da carne no Brasil Agora é a hora da agrosuperação para uma carne forte Carne Fraca ou a fraqueza da carne? E o marketing agora?

CLIENTES E PARCEIROS

  • Olmix
  • Correios
  • Unilever
  • Sebrae
  • Rede Globo
  • Petrobras
  • Vivo
  • Band
  • BNDES
  • Bradesco
  • SBT
  • Banco Itaú
  • Banco do Brasil

Veja todos