CABEÇA
DE LÍDER

José Luiz Tejon

Eldorado/Estadão - Agricultores europeus não temam os agricultores brasileiros: há mercado para todos.

Publicado em 31/01/2024

Divulgação
Os protestos dos agricultores na Europa estão resultando numa postergação do acordo UE & Mercosul.

Os protestos dos agricultores na Europa estão resultando numa postergação do acordo UE & Mercosul.  A narrativa é feita em cima de cortes de subsídios no orçamento da Europa e outras alegações de exigências ambientais, as quais não teriam contrapartida dos nossos produtores rurais.

O Brasil fez uma genuína revolução criativa tropical. Muitos das nossas produtoras e produtores são imigrantes, filhos ou netos oriundos exatamente da Europa, aliás o Brasil é a reunião de todos os povos do planeta.

E aqui, nos solos fracos, nas condições hostis tropicais, onde não se acreditava ser possível desenvolver uma agropecuária moderna e competitiva ao mundo do clima temperado, nós conseguimos.

Sobre subsídios, há 40 anos eu ouço que não será possível continuar subsidiando as agriculturas dos países ricos, pois a lei do livre comércio é da competitividade, e cedo ou tarde um dia se imporá.

Mas a agricultura europeia recebeu sobre o valor da sua receita bruta no período 2020/22, 16,6%. No mesmo período o Brasil usou apenas 3%. Ou seja, os subsídios aos agricultores europeus são mais do que cinco vezes superiores aos nossos. Fazemos um agro sem subsídio. Nosso seguro rural é pífio. Quase sem seguro. Nossas estruturas de logística são ineficientes. Praticamente sem armazenagem.

E nossa agricultura para ser feita no ambiente tropical, toda ela que nos elevou a categoria da 4ª maior agricultura do planeta, precisou ser regenerativa, com utilização de práticas conservacionistas como tão bem podemos exemplificar no plantio direto, não mais aração e plantando as sementes nos solos protegidos pelas palhadas. E para dar um exemplo para quem quiser ver, visite o Zecão em Lucas do Rio Verde (MT) e bota ele para competir com qualquer produtor do mundo!

Nós temos uma extraordinária agricultura ambiental, econômica e social. E onde isso não acontece, vamos encontrar ali o crime e não os nossos agricultores.

Portanto, o problema para a agricultura europeia está no enfrentamento de uma dura realidade. Não são competitivos nas produções de larga escala. Não têm escalabilidade como o Brasil desenvolve e agora ainda adiciona escala na integração de lavoura com pecuária e com florestas, tudo junto ao mesmo tempo; e pequenos e médios produtores mais de 1 milhão de famílias agrícolas nas cooperativas.

Senhoras e senhores agricultores da Europa. Nós, aqui, muitos de nós tendo em vocês nossos ancestrais, parentes, como meus próprios pais, tenham certeza, gostamos de vocês. E queremos o melhor para vocês. Mas não nos vejam como meros competidores que não fazem o estado da arte de um agro regenerativo.

E, com certeza, temos, nós e vocês, muito mercado para criar e desenvolver num planeta onde cerca de 4 bilhões de seres humanos comem mal e cerca de 1 bilhão passa fome. Transição energética, comida de qualidade saudável boa e barata para todos com meio ambiente preservado. Eis a nossa missão. A nossa aqui dos trópicos é a de vocês aí dos temperados.

Que a temperança emocional e racional nos guie a todos. Podemos atrasar o acordo EU & Mercosul, mas ele virá, não temam os agricultores brasileiros, nós iremos dobrar de tamanho nos próximos 10 anos, e será muito bom para o mundo.

José Luiz Tejon para a Eldorado/Estadão.

Também pode interessar

Na Semana do Meio Ambiente podemos comemorar o exemplo da fazenda Santa Brígida. Nesta quarta-feira (dia 9), das 19h às 22 h, convido a todos nossos ouvintes a um encontro sobre ILPF - integração lavoura, pecuária e floresta, ou seja, na mesma área uma fazenda produz gado, grãos e árvores. 
O país todo está polarizado. O bem versus o mal, o nós versus o eles. E no agronegócio a polarização também corre solta. Um vídeo e posts circulam pelo país mostrando uma convocação para 7 de setembro que propõe reunir em Brasília, e pelo país, parte dos agricultores, e os caminhoneiros prometendo parar o país se o voto impresso não for aprovado e o pedido de impeachment dos ministros do STF não for encaminhado pelo Senado federal. Chegam a sugerir sangue derramado, se necessário.
Conversei com o criador do conceito de agronegócio na Universidade de Harvard nos anos 50, prof. Ray Goldberg, e pedi a ele qual o grande conselho que daria para o agro dos próximos 30 anos? E ele foi muito objetivo e claro: "precisamos reunir, unir o mundo numa grande luta contra as divisões e as polarizações. E nesse sentido o sistema alimentar é o único que tem dentro de si essa real possibilidade".
Responsável, prático, radical, liberal, fanático, digital, admirável, cínico ou clínico? Who am I? Quem sou eu? Bolsa de Chicago subiu ontem os preços da soja, do milho, do trigo. Subiu o óleo de cozinha, que vem da canola canadense. Então a cada instante temos turbulências e só temos uma certeza, inclusive sobre o agronegócio, a incerteza.
© 2025 José Luiz Tejon Megido. Todos os direitos reservados. Desenvolvido por RMSite