CABEÇA
DE LÍDER

José Luiz Tejon

Rádio Eldorado/Estadão - O mercado interno é 70% da carne bovina, muita guerra geopolítica virá antes da cota chinesa se efetivar

Publicado em 05/01/2026

Divulgação Acrimat
Mercado interno é de 70% de carne bovina

Uma coisa seria analisar a cota de importação de carne bovina determinada pela China a diversos países, antes de 3 de janeiro com o ataque de Trump a Venezuela. Seria simplesmente mais um exercício tarifário, num mercado, o chinês, onde o consumo per capita da carne bovina é de menos de 5 kg/habitante/ano comparada a nossa de 25 kg/hab./ano, por exemplo.

Com certeza o Brasil, fornecedor estratégico e com potencial para atender uma demanda que será obviamente crescente nos próximos anos, encontraríamos fórmulas negociais de tratar o assunto onde, como nos explicou o Dr. Oswaldo Ribeiro Jr., presidente da Associação dos Criadores do Mato Grosso (Acrimat), o volume brasileiro teoricamente acima dos níveis atuais de exportação do Brasil para a China só iria ocorrer no último trimestre de 2026 e não agora.

Porém, com o ataque dos Estados Unidos a Venezuela, o cenário geopolítico muda totalmente. Conversei com a Acrimat sobre o aspecto das cotas chinesas e seu presidente, Dr. Oswaldo Ribeiro Jr. me disse:

“A nossa visão de produtor é de preocupação porque a gente sempre paga a conta. Tudo que acontece nos mercados, seja a questão sanitária, política, comercial, interfere de forma negativa no preço da arroba que os frigoríficos pagam ao pecuarista. Até nos boatos pagamos antecipadamente essa conta. Você se lembra do tarifaço americano que foi anunciado em julho do ano passado. Logo no segundo dia a grande maioria dos frigoríficos saiu nas compras por alguns dias e, consequentemente, o preço da arroba caiu bastante, impactando todo o nosso segundo semestre. A questão China é estratégica da parte deles porque ninguém compra o que não precisa. Ninguém joga fora nenhum excedente. Eles compram a nossa carne não porque são nossos amigos, mas porque precisam dela. Nossos preços em dólar são os mais baratos do mundo e temos volume para oferecer. Isso é atraente, mas os chineses são negociantes milenares, sabem que precisam do nosso produto, mas sempre fazem questão de nos deixar com a pulguinha atrás da orelha, seja para evitar um bloqueio de fornecimento, seja para evitar futuros reajustes em dólar. O pecuarista que nunca participa dessa negociação é o elo mais fraco da cadeia, porque não consegue nem determinar o preço do seu produto que é feito exclusivamente para os frigoríficos que repassam todas as suas crises para o preço da arroba. Para entendermos melhor, os mercados são dois: o interno que absorve 70% da carne que produzimos e o externo que absorve os outros 30%. E a pergunta que a gente faz e nunca tem resposta é: por que o preço da arroba oscila tanto para baixo quando ocorre qualquer problema com o país comprador, seja China, Estados Unidos, ou outro país? Porque a gente como produtor tem dificuldade de entender é como tudo isso impacta em 100% no preço da arroba, mesmo naquela carne que não vai para exportação. Nesse caso sobre a China a sobretaxa seria apenas sobre o ICD de 1 milhão e 100 mil toneladas que provavelmente seria atingido no último trimestre desse ano e não hoje. De qualquer forma a população pode ficar tranquila porque o produtor independente de preço não vai deixar faltar carne na mesa do brasileiro. O produtor na verdade nem sabe se o seu produto fica no Brasil ou vai para fora. Mas eu tenho certeza que o nosso mercado mais importante é o interno. Esperamos que as medidas implementadas para a proteção desse setor tão importante para o país, contemple também o pecuarista, não somente as empresas exportadoras. A gente espera muito bom senso das autoridades nessas negociações porque é um cliente importante e merece toda a nossa atenção. Um Ano Novo cheio de boas notícias para todos!”

A preocupação maior, da maior entidade de criadores da pecuária brasileira, está mais nas relações internas com os frigoríficos, pois qualquer notícia não tem jeito afirma Oswaldo Ribeiro Jr., a coisa pega e cai primeiro no colo dos produtores rurais.

Mas e com o ataque norte-americano sobre a Venezuela, com ênfase total no petróleo, e sendo a China o maior cliente venezuelano, sem dúvida que os Estados Unidos passa a ter nas mãos um poderoso instrumento de negociações estratégicas com os chineses, o petróleo.

Deste forma, na minha opinião, não me preocuparia mais com a proposição de cotas com tarifas de 12% para volumes de até 1,106 milhão de toneladas e de 55% ao que ultrapassasse esse montante. Até novembro de 2024 o Brasil já havia exportado 1,33 milhão de tonelada. Luís Rua, secretário do comércio e relações internacionais do Mapa, também tem uma expectativa positiva de negociações. Da mesma forma Roberto Perosa, presidente da Abiec.

Agora com esse ataque norte-americano a um aliado e fornecedor estratégico da China na América Latina, na minha opinião, o assunto cota para importações do Brasil ficará em total escanteio, ou até arremesso lateral dentro desse jogo de poderes definitivos de interesse das mega potências Estados Unidos versus China.

Por isso, mais do que nunca o acordo de livre comércio União Europeia e Mercosul, a ser debatido e decidido em 12 de janeiro, passa a ter uma importância gigantesca nesse cenário dos tabuleiros do jogo war global tanto para o Brasil quanto para a Europa.

E um alerta, os Estados Unidos colocou o Brasil sob investigações envolvendo o desmatamento, quando dos tarifaços, e da lei Magnitsky e do Pix. Muita atenção doravante com a Amazônia, um banco de riquezas únicas e raras planetárias, urgente um plano de estado para o desenvolvimento e domínio nacional da Amazônia.

O presidente da Acrimat, Dr. Oswaldo Ribeiro Jr., entretanto, segue de forma correta na sua visão, ao dizer: “venha de onde vierem as notícias de mercado, conflitos, geopolítica, o primeiro atingido nessas guerras são os produtores rurais. De verdade, organização de cadeia produtiva e sua justa coordenação do antes, dentro e pós-porteira das fazendas é ainda o desafio número 1 de todo agroconsciente.

Cotas de importação de carne bovina do Brasil para China, pós Trump pegar Maduro e dominar petróleo venezuelano, ficará em estado de dormência e esquecimento total, na minha opinião.

José Luiz Tejon para a Eldorado/Estadão.

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