CABEÇA
DE LÍDER

José Luiz Tejon

Rádio Eldorado/Estadão - “Oui évidemment”: A indústria de alimentos, bebidas, fashion da França quer muito o acordo UE & Mercosul

Publicado em 09/01/2026

Divulgação
UE e Mercosul aprovam acordo!

Aliás a União Europeia inteira agora quer o acordo com o Mercosul por motivos óbvios (évident, obviamente, évidemment). Há 10 anos coordeno um MBA em agronegócio internacional com aulas em Nantes e Paris, e presença constante no Salon du Agriculture.

Quando conversamos com os setores do antes das porteiras das fazendas e pós-porteira, ou seja, 90% do PIB do agribusiness da França (cerca de 20% do complexo agroindustrial francês é a participação no PIB total do país, porém quando isolamos o dentro da porteira, a agropecuária francesa não ultrapassa 2% do PIB francês), ouvimos dos dirigentes de supply chain, das agroindústrias que processam e agregam valor nas matérias primas agropecuárias que sim para o crescimento industrial, comercial e de serviços da própria França precisam contar com suprimentos do Mercosul, hoje em qualidade, disponibilidade e custos fundamentais para a competitividade desse complexo do agronegócio francês.

Porém, as facções polarizadas e com fundamentos ideológicos conduzem os agricultores franceses para as avenidas parisienses contra os demais agricultores do mundo, como os próprios brasileiros, e como eu mesmo já vi, contra também agricultores ucranianos, ou de qualquer país da própria UE onde essas “lideranças” enxerguem a oportunidade de servirem aos seus fins eleitoreiros.

Os governos dos demais países, inclusive agora a própria Itália, está assumindo uma posição positiva para o acordo. Verbas e subsídios robustos e gigantescos que os nossos produtores aqui jamais sonharam de obter já foram prometidos agora como acesso antecipado a fundos agrícolas em montantes do patamar de 45 bilhões de euros mais de US$ 52 bilhões (só isso equivale a cerca de 30% de todas as exportações do agro brasileiro em 2025) e mais de R$ 282 bilhões. Assim a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, prometeu ao lado de outros protecionismos como paridade obrigatória de jamais produtos do Mercosul terem preços inferiores aos europeus, além de protecionismos ambientais.

Acima e além dessa questão em si, agora numa análise apenas fria de cadeias de suprimentos e valor com obviamente indústria, comércio e serviços querendo muito sim o acordo, a política Monroe de Trump, América para os norte-americanos, estimulando guerras geopolíticas de domínio de territórios, áreas de influência, também para a China e Rússia, um acordo neste momento União Europeia e Mercosul significaria criar um mercado com o 2º maior PIB do planeta na soma da Europa com Mercosul, atrás apenas dos Estados Unidos, com mais de 700 milhões de consumidores e daria efetivamente condições para o sistema do complexo agroindustrial europeu enfrentar seu maior concorrente, os Estados Unidos, bem como explorar os mercados chineses, indianos, asiáticos, Oriente Médio e a própria América Latina.

A agricultura europeia vive uma grave dificuldade de gerar sucessores, e enfrenta consolidação das propriedades. “Europa vazia” uma expressão que ouvimos lá, bem como impossibilidade de competir em escala. Porém possui oportunidades extraordinárias na gastronomia, turismo agrícola, e nos seus incontáveis e encantados “terroir”. A Itália por exemplo domina as mesas do mundo, a França os “spirits” e bebidas sensacionais, a Holanda um poder logístico único, Espanha, Portugal, etc…e cada país europeu tem oportunidades de vendas de originação de valor agregado, Denominação de Origem Protegida (DOP) de cada microrregião, além de turismo agro exponencial.

Desta vez, na minha opinião, com França ou sem França, sairá o acordo UE Mercosul. Por quê? Sim obviamente (oui évidemment, Bien sûr c’est logique), a economia europeia exige e a geopolítica competitiva obriga, Mercosul com Europa, bom para todos e para o mundo.

E atenção agricultores do mundo, uni-vos, ao invés de serem divididos. Alimento é paz afirma Roberto Rodrigues. Nosso profundo respeito a todas as produtoras e produtores de alimentos de todos os lugares, de todas as nações. Compreendam o complexo agroindustrial e irão ver que vossas lutas justas não estão contra agricultores vizinhos e sim no justo comércio das suas cadeias produtivas. Isso é “agribusiness” (Ray Goldberg, Harvard USA/Ney Bittencourt de Araújo, Brasil).

Enquanto editávamos esta coluna recebemos a confirmação que o acordo UE Mercosul foi aprovado na Europa e segue agora para os parlamentos europeus!

José Luiz Tejon para a Eldorado/Estadão.

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