CABEÇA
DE LÍDER

José Luiz Tejon

Eldorado/Estadão - Como não ficar incomodado com o editorial do Estadão: “Vergonha brasileira”?

Publicado em 24/08/2022

Divulgação Estadão
Miguel, garoto que ligou para a polícia dizendo que sentia fome

Somos o 4º maior produtor de grãos do mundo, 3º maior de frutas do planeta, maior rebanho bovino comercial da terra, líderes do açúcar, 2º maior exportador de algodão global, gigantes da proteína animal, da madeira industrial, e na soma total da produção de tudo o que cultivamos nos solos, águas e mares somamos cerca de 1 bilhão de toneladas.

Na soma econômica do PIB do agronegócio integralizando o movimento do antes, dentro e pós porteira das fazendas atingimos cerca de US$ 500 bilhões. E isto significa apenas a metade cheia do copo, temos potencial para mais do que dobrar de tamanho na produção de alimentos, energia e meio ambiente.

Mas o editorial do Estadão de terça-feira (23/08 – Página A3), "Vergonha brasileira"  incomoda. Deixa um nó na garganta e uma gigantesca provocação para qualquer brasileiro de mente sã, principalmente para nós que vivemos e comentamos o agronegócio aqui neste Agroconsciente do Jornal Eldorado.

O editorial traz o relato de um menino, Miguel, que liga para a polícia em Belo Horizonte e diz assim: “O seu policial, aqui é por causa que na minha casa não tem nada para gente comer e eu tô com fome. Minha mãe só tem farinha e fubá para comer”. Os policiais foram e constataram que a família passava fome há pelo menos três dias.

Então ao comentar este fato com analistas econômicos e do agro, eu escuto que o problema não está na falta de alimentos e, sim, na falta de renda para comprar alimentos. Sim, significa uma constatação muito clássica e velha. Mas o ponto é que entramos no século XXI, onde o criador do conceito de agronegócio na Universidade de Harvard, prof. dr. Ray Goldberg agora o rebatizou de um sistema de cidadania, num mundo cheio de desconfianças, e diz que doravante agronegócio será sinônimo de saúde, onde alimentos serão contados para os valores da cidadania, quer dizer, da dignidade dos seres humanos.

Dessa forma enquanto ficamos pautados e discutindo bullyings e fofocas digitais, se urnas são confiáveis ou não, onde vai parar o orçamento secreto, e se um presidenciável faz mais cara feia do que o outro ou se comporta como vítima coitada de um sistema que não o deixa trabalhar, objetivos que transformariam problemas em oportunidades ficam escondidos nesse lumpen de manipulação de massas.

O Brasil pode e deve, sim, além das leis do mercado organizar uma produção agrofilantrópica, que não pode em hipótese alguma se misturar ao mercado, produzida em áreas contratadas, arrendadas, com recursos internacionais para fins únicos de doação de alimentos a cidadãos sem condições de os comprar nas leis do mercado.

Gente, como a família deste menino mineirinho que ligou para polícia pedindo comida. Como ele somamos 1 bilhão na terra sem refeição morrendo de inanição. E para esses a filantropia para começar, sim, depois organização cooperativista para os arrancar da miséria.

Em apenas 5 milhões dos mais de 90 milhões de hectares de terras degradadas, onde nada se faz sem precisar arrancar uma árvore, por que não podemos produzir arroz e feijão, armazenar em condições de segurança alimentar e destinar um montante de 10 milhões de toneladas destes grãos salvadores, o feijão com arroz, para os famintos, aqueles sem renda para consumir, enquanto outros planos de crescimento do PIB produto interno bruto do país não chegam para nas leis do mercado o poder incluir?

Seria 10 milhões de toneladas de feijão com arroz, fora do mercado, uma agrofilantropia brasileira para brasileiros famintos e, se possível, para regiões do mundo na inanição básica alimentar.

Senhoras e senhores presidenciáveis, lideranças do agro, cooperativas, corporações multinacionais, por mais que as regras econômicas e sociais expliquem o menino que pede comida à polícia, não dá para ficar calado observando como se não fosse comigo.

Podemos dobrar o agro brasileiro de tamanho do lado das forças do mercado, sim, mas devemos também ter uma produção especial paralela, não misturada com as leis de mercado, exclusivamente para fins filantrópicos de um prato de feijão com arroz para todo brasileiro que ainda não tem renda para o comprar, e que vergonha pela fome não precise passar.

Conab, ministérios, Embrapa, confederações empresariais, Ongs, sociedade civil organizada, uni-vos acima da economia e da egonomia. O menino Miguel, mineirinho que ligou para a polícia pedindo comida é uma criança interior que vive dentro de cada um de nós, e sua voz fala mais alto, é agroconsciente.

Agronegócio ao mercado o que é do mercado, e agrofilantropia aos que ainda não têm renda para comer todo dia.

José Luiz Tejon para a Eldorado/Estadão.

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