Eldorado/Estadão - “Fazer o que todo mundo já sabe que tem que fazer, é só fazer”, afirma Roberto Rodrigues.
Publicado em 10/03/2025
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Segurança alimentar de uma nação está acima do som dos berrantes: são causas estruturantes. Roberto Rodrigues, Tirso Meirelles, Arnaldo Jardim, Pedro Lupion, explicam e o próprio ministro Fávaro concorda.
O Teddy Viera, autor de mais de 300 músicas, uma delas sucesso eterno, “Menino da porteira” que pedia “toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo…”, porém na emocionante letra dessa melodia gravada por Sérgio Reis, o final triste revelava que esse menino foi morto “por um boi sem coração, e que ali o boiadeiro decidiu tocar o berrante nunca mais…”.
Música e poesia para provocar a dura realidade das causas estruturantes do tema da segurança alimentar de uma nação e do custo dos alimentos, e de que não adianta ficar berrando, berranteiros com seus berrantes, pois este assunto exige planejamento estratégico de estado. As legítimas causas, versus medidas irracionais que fazem barulho, mas nada resolvem.
As fontes ouvidas por nós são todas claras e convergentes quando pontuam a necessidade de foco, de uma orquestra agroalimentar com todos os seus instrumentos orquestrados.
A FAESP manifestou sua visão através do seu presidente Tirso Meirelles, que afirma: “o governo perdeu a mão da política monetária, inflação em alta e juros exorbitantes e não existe estoque regulador, armazenamento, a infraestrutura é incapaz de atender a produtividade nacional trazendo custos adicionais ao produtor rural e nos preços ao consumidor final. Tirso Meirelles reafirma a necessidade do governo investir na solução de desafios estruturantes (novamente muito além dos berrantes).
O deputado Arnaldo Jardim (cidadania), vice-presidente da FPA, assim como o deputado Pedro Lupion (PP), presidente da FPA, se manifestaram da seguinte forma: “o governo anunciou medidas para conter o preço dos alimentos, mas são totalmente ineficientes, com poucos resultados pontuais. Zerar tarifas de importação não resolverá problema de preços. Não vamos encontrar preços mais baratos, pois somos grandes exportadores exatamente por termos qualidade e preços dos mais competitivos do mundo. Precisamos buscar soluções estruturadas, rever a questão tributária, rever toda estrutura de custo de produção”.
O próprio ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, se posicionou contrário as ideias que já demonstraram seu efeito boomerangue no passado como taxar exportações. Significaria a ruína do crescimento do agro, e do que temos para crescer com perspectiva de dobrar de tamanho nos próximos 12 anos.
O ex-ministro Roberto Rodrigues, professor emérito da FGV, atua na mesma linha da necessidade de planejamento de estado, estruturante. Ouça a opinião de Rodrigues no podcast abaixo.
Então além dos aspectos todos levantados pelas nossas fontes, quando conversamos com a ABIA, Associação Brasileira da Indústria de Alimentos e Bebidas, que adquire praticamente 60% de tudo o que é produzido pela agricultura no país, seu presidente João Dornellas nos diz: “temos a segunda maior carga tributária sobre alimentos do mundo, 24,4%”. Aí, sim, a curtíssimo prazo tirar impostos sobre alimentos causaria um anestésico momentâneo.
Ou seja, não adianta só tocar berrante, e sobre pequenos agricultores, com terra, ou já assentados com títulos de suas terras, ou atuam numa estratégia de cooperativas, ao lado de agroindústrias locais com tecnologia e acesso aos mercados, ou como in memorian, Alysson Paolinelli registrava: “no Brasil temos mais de 4 milhões de agricultores com terra, porém famintos”.
Agora a safra nova entra no país daqui pra frente, mesmo com as inseguranças climáticas teremos safra com mais de 320 milhões de toneladas.
Porém, os efeitos das guerras comerciais protagonizadas pelo “berranteiro mor” do mundo hoje, o Mr. Trump, terão impacto no aumento dos preços mundiais das commodities, e com certeza nos alimentos e na energia, pois a insegurança irá se manifestar e isso impacta preços, como vimos na COVID-19, e iremos ver agora, afinal os Estados Unidos são o maior agronegócio do planeta, e riscos de embargos de alimentos serem usados na guerra comercial, nenhuma novidade nisso ao longo da história, existem.
Portanto, o bom senso do Brasil será o de apoiar ao máximo um Plano Safra 2025/26 que atue para aumentar safras e utilizar áreas degradadas novas sem tirar uma árvore sequer, e ter metas de produção pelo menos em alimentos vitais ao país, ao lado das recomendações que ouvimos aqui no agroconsciente, planejamento estruturante, pois o preço dos alimentos, mais de 80% deles, e em muitos casos mais de 95% deles não é feito pelos agricultores e sim por tudo que envolve os agricultores no antes e pós-porteira das fazendas.
Afinal isso é agronegócio, um sistema agrícola, industrial, comercial e de serviços. O agricultor é o mais vulnerável nessa estrutura de custos, além dos riscos climáticos, pragas, doenças, câmbio, etc.
Assunto estruturante de governo, de estado, muito além do Ministério da Agricultura isoladamente.
Então fico com a palavra do Roberto Rodrigues: “mas isso todo mundo já sabe, é só fazer”.
Não basta tocar o berrante seu moço, a causa é estruturante. Vamos fazer?
José Luiz Tejon para a Eldorado/Estadão.