CABEÇA
DE LÍDER

José Luiz Tejon

Eldorado/Estadão - O agro brasileiro visto daqui é maior, mais bonito e muito mais importante para o mundo

Publicado em 24/02/2023

Le Monde
Le Monde afirma: a alimentação não pode ser usada como arma de guerra

Poderia fazer uma má comparação, como quando assistimos uma partida de futebol do alto da arquibancada versus com a cara colada no alambrado. Perdemos a beleza do jogo pelos xingamentos contra o juiz, o técnico e mesmo falando mal dos nossos próprios atletas.

Estou aqui no meio acadêmico europeu e recebendo executivos de organizações do agronegócio que vem para fazer apresentações aos nossos alunos do mestrado internacional que tem diplomação dupla na França pela Audencia Business School e no Brasil pela FECAP.

No jornal Le Monde de ontem a manchete trazia: “a alimentação não pode ser usada como arma de guerra”. E uma página inteira dedicada “a guerra exacerba a crise alimentar”. As lideranças europeias pedem o desenvolvimento da agricultura local como fator estratégico de segurança, criticam a dependência revelada pela guerra no suprimento das cadeias produtivas, incluindo os insumos, e quando trazemos o assunto para o agro brasileiro, com mais ou menor preocupação sobre os aspectos ambientais, ouço uma unanimidade de que somente o Brasil pode aumentar a produção de alimentos em tudo, e que no trigo a curto prazo somente a Rússia.

Os alunos internacionais estão apresentando casos brasileiros e os debatendo aqui como iniciativas de chocolates na Amazônia com sustentabilidade e responsabilidade social, como programas voltados a pequenas famílias agrícolas totalmente envolvidas na gestão ESG, meio ambiente, social e governança. E outros exemplos como gestão da irrigação, a transformação do lixo em adubos orgânicos em cidades, o biogás dos dejetos, e demais iniciativas da energia não fóssil e da originação regenerativa e com sistemas digitais de mensuração de centenas de jovens brasileiros nas nossas startups.

Interessante ver, ouvir e falar do Brasil aqui da Europa, tratando com racionalidade as questões. Não estamos aqui inventando mentiras, fake news, ou somente fazendo propaganda enganosa. Trazemos cases científicos, metodológicos, comprováveis, e isso, sim, cria na juventude do mundo que se reúne aqui uma legítima curiosidade e boa vontade de conhecer mais do Brasil.

Ontem soubemos de uma pequena propriedade de gado no Pará que apresentou a doença da vaca louca. Vale parabenizar a Adepara, Agência de Defesa Agropecuária do Pará pela intervenção e correta informação ao mundo do caso e da sua interdição preventiva e já informando hoje que se trata de uma forma atípica da doença, não causando risco de disseminação no rebanho e em seres humanos.

Mas o que fica aqui destes dois registros é por um lado o quanto temos para fazer para o Brasil, pelo Brasil e com o mundo sobre a paz, a segurança alimentar planetária. Vistos daqui, de longe e mais de cima, fica claro que nossos inimigos número 1 não estão do lado de fora do Brasil, e sim são os que alimentam as brigas intestinas que nos tiram o foco de imensas oportunidades muito além das reverberações de notícias que não gostamos.

E outro aspecto, um local com 160 cabeças de gado no meio de um Brasil com mais de 200 milhões de animais na sua pecuária pode fazer parar, ainda que por alguns poucos dias, um comércio vital para os brasileiros e os clientes estrangeiros.

Ou seja ,como cantou John Lennon em Imagine, “o mundo um dia será um só”.No sistema do agribusiness internacional não há mais dúvida, protocolos, sanidade, segurança alimentar, sustentabilidade, cidadania, sim, o mundo já ficou um só, pois basta um minúsculo ínfimo imperceptível e improvável percentual não atender contratos e protocolos combinados, para parar todo o restante.

No sistema agroindustrial “o mundo já virou um só”.

José Luiz Tejon para a Eldorado/Estadão.

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O país todo está polarizado. O bem versus o mal, o nós versus o eles. E no agronegócio a polarização também corre solta. Um vídeo e posts circulam pelo país mostrando uma convocação para 7 de setembro que propõe reunir em Brasília, e pelo país, parte dos agricultores, e os caminhoneiros prometendo parar o país se o voto impresso não for aprovado e o pedido de impeachment dos ministros do STF não for encaminhado pelo Senado federal. Chegam a sugerir sangue derramado, se necessário.
Conversando com especialistas, doutores, ógãos científicos como Fundação MT, CCAS - Conselho Científico do Agro Sustentável, entre outros, ouvi deles que a ampliação da janela de plantio da soja que ia até 31 de dezembro, expandida até meados de fevereiro, coloca em risco um fundamento sagrado da agronomia. É um crime agronômico plantar a mesma cultura no mesmo local em sequência.
Deixar de plantar 20 milhões de árvores e colocar em risco empregos, custos ao consumidor e desacreditar o Renovabio é o que vale a decisão de manter em 10% a mistura do biodiesel, foi o que ouvi do ex-ministro Francisco Turra, atual presidente do Conselho da Aprobio, Associação dos Produtores de Biocombustível do Brasil.
Numa era de polarizações, revelações de corrupções, descubro uma família agrícola que merece nesta data este meu espaço e este meu comentário por se tratar do que mais precisamos redescobrir na alma da gente brasileira. Voltando de Umuarama para Maringá, pela PR-323, no quilômetro 179 vejo umas plaquinhas de estrada avisando. Barraca da honestidade logo ali. Diminuímos a marcha e paramos em frente a uma simples barraquinha de beira de estrada com a placa “barraca da honestidade”. Não tem cobrador, não tem ninguém para fiscalizar.
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